Foto de Ministro da educação Milton Ribeiro com Bolsonaro com o símbolo do BOPE em segundo plano.

Universidades para muitos ou para poucos não é “a questão”

A recente fala do ministro da Educação Milton Ribeiro sobre as universidades ascendeu enorme polêmica pelo seu carácter elitista. O ministro disse, “com todo o respeito que tenho aos motoristas, é uma profissão muito digna, mas tem muito engenheiro, muito advogado dirigindo Uber porque não consegue colocação devida. Mas se ele fosse um técnico em informática estaria empregado, porque há uma demanda muito grande”. Algo semelhante que seu antecessor, Ricardo Vélez também já havia dito, “universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual”.

Foram várias as críticas emitidas sobre a declaração por formadores de opinião. A fala mereceu até um editorial da Folha de São Paulo. Entretanto, nenhuma crítica lida pelo autor foi ao cerne do problema da educação no Brasil. A razão, por óbvio, é que o problema não está restrito à educação. Especialmente quando se delimita o tema ao ensino técnico e superior.

É facto que apenas 21% dos brasileiros de 25 a 34 anos possuem ensino superior. A média dos países da OCDE é 45%. Da Alemanha é 32% – país citado por Milton Ribeiro como exemplo de priorização de ensino técnico. Países como México (24%), Colômbia (30%), Chile (34%) e Argentina (40%) formam mais que o Brasil. Sem falar em nações como República da Coréia (70%), Canadá (63%) Rússia e Japão (ambos com 62%).

É aqui onde mora o busílis!

Para a Folha de São Paulo, “num mundo em que o saber é cada vez mais importante, a capacidade da população de adquirir, utilizar e produzir conhecimento se torna um grande diferencial entre os países, que muitas vezes competem por investimentos”. A lógica por trás do pensamento do establishment é que basta o investimento em educação e a formação de capital humano para o país despontar através da atração de investimentos. Nada pode ser mais equivocado. O Brasil é um bom exemplo.

O número de ingressos em universidades públicas do Brasil dobrou do ano 2000 até hoje. É factual que houve significativa evolução; mesmo o número sendo baixo frente aos demais países. Não é necessário apontar as deficiências em qualidade para efeito desta discussão. O que conduziu ao trágico cenário da multiplicação de “engenheiros dirigindo Uber” não foi o eventual aumento do número de profissionais formados. Mas sim, a ausência de política industrial que gerasse dinamização e diversificação da matriz produtiva capaz de absorver profissionais qualificados. Além da importante contração do parque industrial brasileiro. Participação na indústria de transformação do PIB despencou dos já incipientes 15% para menos de 10%. O tempero desse quadro foi o esgotamento do nacional consumismo com o esvaziamento do atípico boom de commodities; o tratamento ministrado foi a imersão em um neoliberalismo noventista de carácter sectário que agravou o pecado original.

Não fazer investimentos necessários para alcançarmos padrões de capital humano de países da OCDE não é solução. A consequência da sandice seria a condenação do povo brasileiro ao conformismo com ocupações demandadas pelo setor primário, posições fordistas — em extinção — do setor secundário e do terciário, aqui ganham destaque os motoristas de UBER.

Por outro lado, não é suficiente espalhar universidades públicas e privadas pelo território sem planejamento estratégico como feito por gestões passadas. O desenvolvimento de um país não resulta da soma de habilidades individuais de seus habitantes. Mão de obra qualificada se transforma em produto de exportação na ausência de planejamento e política industrial.

Fuga de cérebros!

Mesmo o mais qualificado espontaneísmo individual não faz nascer desenvolvimento.

Não há precedente!

O Brasil precisa de uma coordenação de Estado para estimular seu segundo setor em baixo, médio e elevado nível de complexidade tecnológica. A participação da indústria de transformação no PIB precisa crescer. O crescimento estimularia o setor primário — fraco empregador — mas principalmente, o setor terciário, com maior capacidade de empregabilidade, especialmente quando dinamizado pelo secundário.

A educação sozinha é transformadora de indivíduos.

Quando associada a uma coordenação produtiva transforma países.

 

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