O poder das agências de inteligência: o caso Putin/Navalny

Marcel Coelho: Sobre o caso Navalny, opositor russo.

Não é sobre chá. Não é sobre Novichok. Não é sobre direitos humanos. Não é sobre valores universais. Trata-se do jogo de agências de inteligência em prol de poder geopolítico.

Sobre o caso Navalni, opositor russo.

As histórias desprovidas de provas materiais disseminadas pela mídia OTAN grudam no público ocidental de uma forma impressionante. Novichok (agente neurológico) associado a foto em aeroporto são suficientes para fechar a “narrativa”.
Moscou deixaria Navalny deixar o país rumo a Alemanha caso houvesse forma de identificar um suposto envenenamento?

A versão chega a ser infantil.
Ademais, isso acontece exatamente no momento da crise da Bielorússia.
Coincidência?

Aleksandr Lukashenko, presidente da Bielorússia, disse que a KGB (Agência de inteligência de seu país) interceptou um telefonema entre alemães e poloneses. A interceptação demonstraria detalhes de como arquitetaram e plantaram a confirmação do suposto envenenamento do oposicionista Navalny. Os detalhes serão encaminhados à Moscou (FSB).
Em 2018, o jornalista saudita Jamal Khashoggi foi torturado e esquartejado ainda vivo no consulado da Arábia Saudita em Istambul (Turquia). Incidente a mando do príncipe herdeiro Mohamed bin Salman (mais conhecido pelas iniciais MBS). Ao contrário do caso Navalny, para este, há provas materiais irrefutáveis.
Onde estão as sanções contra a Arábia Saudita?
Onde está a pressão da OTAN?

É uma obviedade que o mistério passa pela geopolítica. Os Russos estão construindo um gasoduto — Nord Stream 2 — que permitirá a Alemanha dobrar o volume de gás natural importado da Rússia. O que tornará a Rússia independente de gasodutos de outros países, a exemplo da Polônia e Ucrânia — Polônia esta, acusada de tramar toda a história de Navalni. O projeto casa com as metas ambientais da Alemanha, já que o gás natural é menos poluente que os demais combustíveis fósseis.

Entretanto, a estratégia, já estabelecida e sem retorno — o gasoduto já está 83% concluído — confronta os interesses de países intermediários; passarão a lucrar menos com a rota alternativa. Confronta os interesses da OTAN, pois aumentará a dependência da Europa Ocidental pela fonte de energia russa. Também confronta os interesses dos Estados Unidos, pois vai de encontro aos planos de suas companhias que ambicionam que o mercado europeu atenda ao gás extraído de seu território via fraturamento hidráulico. O gás de xisto.

Vejam, amigos de luta. Não é sobre chá. Não é sobre Novichok. Não é sobre direitos humanos. Nem sobre valores universais.

Trata-se do jogo de agências de inteligência em prol de poder geopolítico.

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