Se Biden espelha Roosevelt é Ciro quem reflete Getúlio

Se Biden espelha Roosevelt é Ciro quem reflete Getúlio

Os planos anunciados por Biden causaram uma hecatombe nas certezas da ortodoxia econômica. O líder estadunidense tem sido chamado de “o homem de 6 trilhões de dólares“. Foram 1,9 trilhão em investimentos emergenciais ao enfrentamento da pandemia, 2,3 trilhões nos programas de investimento em infraestrutura e agora 1,8 trilhão em auxílio às famílias. Biden tem revertido a lógica de desregulamentação econômica que hegemonizou o pensamento e prática dos Estados Unidos desde a era Reagan. Lógica que foi exportada às nações periféricas através dos postulados do Consenso de Washington. Síntese do processo de liberalização pela qual os Estados Unidos passaram a ser modelos e influenciadores. Não por acaso, datado de 1989, último ano do governo Reagan, foi receituário das políticas das agências de financiamento como o Banco Mundial e FMI. De lá para cá, Estados Unidos perderam o fio desenvolvimentista responsável pela sua liderança mundial e se veem ameaçados pela China. País que nunca desacreditou da função desenvolvimentista de seu Estado Nação. Outro dia, um economista afirmou que Reagan mais parecia um agente secreto chinês, tamanho o retrocesso vivido pelos Estados Unidos após as medidas encabeçadas por sua gestão. Brincadeiras à parte, Biden representa o ressurgimento dos ideais de Roosevelt. E não esconde essa pretensão. Resgatou um retrato de Roosevelt no salão oval.

Presidente que o inspira apesar de já o ter superado.  O “New Deal” de Roosevelt girava em torno de 650 bilhões de dólares em valores atualizados. Era um conjunto de medidas com o objetivo de recuperar e reconfigurar a economia estadunidense após a debacle da grande depressão. Já Biden luta para se firmar como o homem de seis trilhões de dólares.

 Roosevelt permaneceu na presidência de 1933 até 1945 e enfrentou a II Guerra Mundial. O Brasil foi liderado por Getúlio Vargas durante todo esse período. Mas foi em 1943 que o caminho das duas nações se encontraram. A guerra implodiu em 1939. Estados Unidos ingressaram em 1941 após o bombardeio de Pearl Harbor. Naquele momento, não se tinha ideia do bloco que venceria a guerra. Getúlio se manteve neutro e pragmático até o limite permitido pela conjuntura. Enquanto setores específicos do governo acenavam para o Eixo, Oswaldo Aranha sinalizava aos Aliados. Foi somente em 1942 que o Brasil entrou na Guerra apoiando os Aliados. Uma resposta a pressão da opinião pública que repercutia o bombardeio de navios brasileiros. Entretanto, os termos da participação brasileira só foram definidas com o encontro de Getúlio e Roosevelt em Natal. A famosa Conferência de Potengi foi uma vitória e um marco da diplomacia brasileira. Foram definidos a formação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), participação do Brasil nos combates, garantia de fornecimento de borracha e outros insumos à produção bélica dos Aliados, além de proteção do Atlântico Sul. Em contrapartida, Getúlio conseguiu recursos para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional. Empresa fundamental para o processo de industrialização brasileiro.

Além do encontro histórico, algumas semelhanças unem Roosevelt e Getúlio. Ambos foram os presidentes que lideraram suas nações por mais tempo. Atravessaram críticas inflexões históricas em seus países. Enquanto Roosevelt superou os reflexos da crise de 1929, Getúlio suplantou a República Velha liderando a “Revolução de 30”. A popularidade de ambos foi consequência dos modelos de gestão caracterizados por forte intervenção estatal e robustos investimentos em infraestrutura com efeitos na qualidade do emprego e salário da classe trabalhadora. Não por acaso, ambos são ranqueados entre os maiores presidentes de suas nações.

Estados Unidos sofrem as consequências de décadas de equivocadas políticas liberalizantes. Exportaram seus empregos e lutam para equilibrar na corrida desenvolvimentista com a potência asiática. Simultaneamente, Brasil sofreu um processo de reprimarização econômica sem precedentes. A participação da indústria de transformação no PIB que já chegou próximo aos 30% hoje é de 10%. Algo que faz lembrar aquele país rural da República Velha, precedida pela Revolução de 30. Lá foi eleito Biden invocando o espírito de Roosevelt. Os ventos da história sopram para que por aqui se invoque o espírito de Getúlio na pessoa de Ciro. Lutemos para que aconteça!

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