Pague-nos para não destruir a Amazônia

A “Cúpula de Líderes sobre o Clima” foi uma promessa de campanha de Biden e traz as preocupações mundiais sobre meio ambiente ao primeiro plano. Participam as 17 nações integrantes do Fórum de Energia e Clima de Grandes Economias, responsáveis por 80% das emissões globais de carbono, países vulneráveis e aqueles que lideram ações relevantes para a conservação do meio ambiente, totalizando 40 convidados. Brasil é a atual 12ª economia do mundo em queda livre hospeda a maior parte da Amazônia e um país megadiverso, entretanto, à Bolsonaro foi dada a 21ª fala. Uma aula de diplomacia. O simbólico projetando o real. É reflexo de como o Estado brasileiro vem versando seu patrimônio natural. Não há necessidade de rememorar todos os retrocessos que se sucederam desde a posse do capitão. Basta dizer que enquanto Salles está de olho no “imediato” US$ 1 bilhão dos países ricos, esquecem que Brasil já possui R$ 2,9 bilhões imobilizados em uma conta do governo federal proveniente do Fundo Amazônia. Dinheiro doado por Alemães e Noruegueses há mais de dois anos que não foram aplicados por “negacionismo psicótico”. Ademais, o principal projeto que Bolsonaro e Salles querem executar com o bilhão seria uma “Força de Segurança Ambiental”. A imprensa fez a denuncia e deu voz à Márcio Astrini, diretor do Observatório do Clima:

“Já existem órgãos capazes de realizar essa fiscalização, como Ibama e o ICMbio, que o ministério do Meio Ambiente vem desmontando. Só que esses órgãos priorizam o interesse público, e o que Salles quer de fato é ter uma milícia oficial que obedeça somente a ele”.

Em tempo, às vésperas da “Cúpula de Líderes sobre o Clima”, a Assembleia Legislativa de Rondônia, estado governado por um “bolsonarista”, ratificou a redução de cerca de 200 mil hectares de duas unidades de conservação, a Reserva Extrativista Jaci-Paraná e o Parque Estadual Guajará-Mirim; o que foi considerado a maior ação desse tipo já aprovada por um parlamento estadual. Diante dessa e de muitas outras, a sede pelo bilhão parece mais relacionada com uma tentativa de irrigar a indústria de armamentos. formação de milícias para legitimar e  proteger os grileiros das comunidades locais. É a realidade superando qualquer ficção. Uma distopia inimaginável.

A chantagem barata que intitula o post  “pague-nos para não destruir a Amazônia” é uma demonstração de ignorância absoluta. É facto que a floresta tem um papel relevante para a manutenção do clima do planeta em uma escala global, entretanto, o Brasil deveria ser o maior interessado em sua preservação. Os motivos são inúmeros. Basta dizer que da Amazônia depende toda a dinâmica hídrica do país. Estamos falando de abastecimento humano, regime de chuvas (e.g. produção agrícola) e geração de energia. Destruir a floresta, em última instância, significa inviabilizar o metabilismo social do país.  Além dos serviços já prestados, a Amazônia é um ativo em potencial.

Fundamental ressaltar que o alívio das pressões sofridas pelo ambiente no Brasil somente ocorrerá se o país diversificar sua matriz de produção e passar a ocupar uma outra posição na divisão internacional do trabalho. A preservação ambiental depende do desenvolvimento de um parque industrial de baixo, médio e alto nível de sofisticação. Esse cenário permitiria agregar valor aos produtos primários produzidos, sejam amistosamente ou às custas do patrimônio natural; usar as demandas e encomendas da indústria nacional para o desenvolvimento de maquinários e insumos necessários à manutenção de sua dinâmica. Através de efeito multiplicador e partindo de nossas vocações naturais, outras áreas seriam naturalmente impulsionadas. É necessário crescer, diversificar e sofisticar o parque industrial brasileiro para diminuir a dependência da economia de produtos extraídos diretamente do meio ambiente — produtos primários —  condição sine qua non para arrefecer a pressão sobre os recursos naturais e estabelecer estratégias mais eficientes de uso.

Sem indústria não há floresta. 

Todos os países com êxito em gerir o meio ambiente e melhor conservar seus recursos naturais possuem parques industrias bem desenvolvidos. Ao se projetar a Amazônia, deve-se pensar em uma bioeconomia acoplada à ambientes de inovação. A hileia é a matéria prima para se caminhar por entre fronteiras da biologia molecular, química, farmácia, bioengenharia, medicina tropical etc. Para que o óbvio venha a prevalecer, o nível de destruição não pode superar  a “taxa de não retorno” já apontada por nossos cientistas.

Temos que parar aqueles caras!

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