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A melhor oportunidade de desenvolvimento do Brasil está passando despercebida

Em 2021 o Brasil deve exportar 41,25 bilhões de dólares em minério de ferro. O que supera as receitas advindas das exportações de soja e isto explica o motivo pelo qual a Vale S.A. é a maior exportadora do país há alguns anos.

A maior parte desse minério sai de Minas Gerais e Pará, principalmente do Pará – estado que tem o maior projeto mineral do planeta, o Projeto Grande Carajás.

A maioria dos brasileiros, mesmo entre os mais esclarecidos, não conseguem entender a relevância das exportações minerais para a economia brasileira. De forma simples, a classe média e os ricos brasileiros só conseguem comprar produtos sofisticados (smartphones, tablets, computadores, carros, jatos particulares etc) graças aos dólares que entram no país por meio, principalmente, das nossas exportações.

Se um dia o Brasil perdesse o minério de ferro como matéria exportadora, simplesmente perderia sua melhor fonte de captura de dólares, pois a cadeia da indústria extrativa importa menos em relação ao que exporta do que outros setores como o agronegócio, que importa grandes quantidades de motores, tratores, fertilizantes etc e nada disso seria possível sem a atuação da Vale.

A Vale foi criada em 1942, como uma empresa que pertencia ao estado brasileiro, após Getúlio Vargas encampar as reservas de ferro mineiras que pertencia ao magnata estadunidense Percival Farquhar. A estatal foi se modernizando até que em 1974 a empresa assumiu a liderança mundial na exportação de minério de ferro, posto que nunca mais perdeu.

Para se ter ideia do gigantismo da história da Vale, em 1962 ela criou a Docenave, uma empresa de navegação para levar o minério brasileiro para o Japão e em poucos anos depois após sua criação, a Docenave já era a terceira maior empresa de navegação graneleira do mundo. Na década de 60 houve a descoberta das jazidas de Carajás e então a Vale e o estado brasileiros investiram pesado para viabilizar sua exploração, como a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, a estrada de ferro Carajás (892 km) e o Porto de Ponta da Madeira.

Assim, em 1985 a Vale começou as operações do Projeto Grande Carajás e em 1989 já batia novos recordes de produção. O beneficiado direto de todos esses investimentos era o povo brasileiro, pois os lucros das vendas de minério ficavam para o estado, os bons empregos eram preenchidos por brasileiros e a Vale criava tecnologia de ponta na área da indústria extrativa em solo nacional.

No entanto, tudo isso só existiu até 1997, quando FHC privatizou a empresa por 3,3 bilhões de dólares e em Fevereiro/2021, após desembolso do BNDES de 10 bilhões em ações da mineradora, os acionistas estrangeiros se tornaram os verdadeiros donos da Vale, com 55% das ações, dentre os quais se encontram os estadunidenses Capital Group e ela… sempre ela… a Black Rock.

O lucro da Vale nos últimos 12 meses foi de 89,4 bilhões de reais e poderia servir de ajuda para os 19 milhões de brasileiros que hoje estão passando fome e os 117 milhões de brasileiros que estão em insegurança alimentar caso sua propriedade fosse como projetada por Getúlio Vargas. No entanto, no Brasil pós-FHC, a maior parte do lucro bilionário da Vale vai ser repatriado para o estrangeiro e muito pouco vai ficar para os brasileiros.

Porém…

Muitos devem estar revoltados com esse cenário e pensam que caso um dia o Brasil retome as rédeas do destino de seu minério de ferro, o Brasil poderia usar os lucros gigantes da Vale para beneficiar seu povo. Até onde isso é verdade? Digo, em realidade a melhor e talvez última oportunidade de desenvolvimento da história do nosso país pode estar passando diante dos nossos olhos e o povo não aproveitará muito dessa oportunidade.

O que garante que os preços internacionais do minério de ferro continuarão tão favoráveis? O que garante que a demanda por minério de ferro continuará crescendo? O que garante que não surgirão concorrentes no cenário de competição internacional e vão forçar uma derrubada do preço por excesso de oferta? Sobre este último questionamento cabe uma reflexão, pois ele pode ser mais real do que a tranquilidade aparente sugere.

Em 2019 o Brasil exportou incríveis 340 milhões de toneladas de minério de ferro, sendo a China a maior compradora disparada, cerca de 59% neste ano. No entanto, com a crise da Evergrande, grande demandadora do ferro brasileiro para empregar em suas construções na China, os preços da commodity em questão foram ao chão devido ao pânico dos mercados e a queda da demanda. Mas para além disso, uma notícia passou um tanto despercebida no cenário internacional e assim foi a manchete no South China Morning Post: “China critica golpe militar na Guiné e solicita soltura do presidente Alpha Condé, diante de crescente instabilidade na África Ocidental”.

Mas e daí?

E daí que na Guiné há uma Carajás inteira para ser explorada. Simandou, na Guiné, possui um dos maiores depósitos inexplorados de minério de ferro do mundo e não demorará muito para este minério sair do chão, pois em Novembro de 2019 o projeto de minério de ferro Simandou da Guiné foi concedido ao consórcio Winning Consortium Simandou China-Singapura-Guiné. No entanto, devido às questões políticas, o projeto ainda não andou muito em frente, porém isso não impediu a China de já começar a instalar uma moderna infraestrutura na Guiné para viabilizar a exploração mineral.

Enquanto o minério da Guiné ainda não entrou de vez no jogo, o minério brasileiro “passa bem”, mas até quando continuaremos a contar somente com a sorte?

De fato, é com muito pesar, que podemos estar vendo diante dos nossos olhos a melhor oportunidade de desenvolvimento do Brasil dos últimos 50 anos passar despercebida inocentemente ou, como todos sabem e ninguém fala, propositalmente. A pergunta que sempre fica é:

CUI BONO?

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