Ciro Gomes gesticulando.

O “temperamento” de Ciro Gomes e o jornalismo brasileiro

Um dos grandes problemas do Brasil é a falta de pluralidade no debate público. O oligopólio dos meios de comunicação adotam os discursos que favorecem a manutenção do status quo. Elementar. Não há que se buscar mudanças estruturais que possam interferir na direção e fluxo do dinheiro e riqueza. Daí as concepções únicas, homogêneas e a redução do espaço a atores que minimizem o risco à manutenção da ordem. Até aí, sem novidades. Entretanto, há limites. Sob o risco da estratégia gerar uma perda de credibilidade e confiança na audiência.

Os limites têm sido ultrapassados regularmente quando se trata de Ciro Gomes. Na recente entrevista concedida a Roberto d`Ávila na GloboNews, mais uma vez, o jornalista levanta o tema do suposto temperamento de Ciro. É provável que Ciro nunca tenha concedido uma entrevista à Globo em que essa questão não tenha sido levantada. Entretanto, superados dois anos de Bolsonaro no poder e frente a tudo que se flagrou, a pergunta ultrapassa o ridículo. Basta uma análise rápida sobre a liturgia da famosa reunião ministerial e as pérolas proferidas por Paulo Guedes. O Ministro foi tempero para a “elite nacional” deglutir a carne podre de Bolsonaro. Sem contar registros constrangedores de Lula que passam despercebidos pela grande imprensa.

Será que durante mais um ciclo eleitoral, o candidato terá que gastar preciosos minutos para responder a este espantalho?

A entrevista deu pistas que sim. O cenário para o próximo pleito já começou a se delinear. Bolsonaro está em processo de derretimento. Há quem defenda uma reversão ou minimização dessa tendência devido a “recuperação” econômica. Entretanto, é consensual que representa um polo na disputa. Já Lula provê absoluta segurança ao sistema financeiro. Não tem criticado nem mesmo o teto de gastos. Uma terceira via na avenida construída pela poucas famílias que se habituaram com a transferência de renda — do trabalho ao financismo — é pouquíssimo provável.

Os candidatos a terceira via são mais úteis como dispersores dos votos que não orbitam os desejados polos. Dificultam que um projeto de mudança estrutural alcance dois dígitos nas dispendiosas, frequentes e suspeitíssimas pesquisas eleitorais. Seria uma ameaça ao consenso de Vera Cruz, reflexo do de Washington.

O projeto encabeçado por Ciro não é primeira, segunda e nem terceira via. Está fora da avenida da tributação regressiva e do rentismo. Aí o porquê a este projeto ser raramente oferecido um jornalismo sério. É razão única pela qual, ao invés de dedicar todo o seu escasso tempo para destrinchar um plano construído à múltiplas mãos, Ciro é obrigado a falar de seu “temperamento”.

A solução é aceitar uma clara tentativa de colar ao candidato uma imagem que não corresponde a sua prática?

Assim como a política, jornalismo não vive sem público. É preciso denunciar. Está claro que essa é uma atitude a serviço de um propósito “pouco republicano”. Ciro já tem uma militância forte, engajada e organizada. Pressão neles! Jornalismo que se quer sério precisa se fazer sério. O profissional há que escolher entre o “ser jornalista” ou “agente de propaganda”. As redes sociais estarão cada vez mais fortes na definição de quem é quem.

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