Ciro e Lula juntos.

Não se trata de Ciro ou Lula. A disputa é entre desenvolvimentismo e liberalismo

Ciro Gomes defendeu, pela enésima vez, que Lula seguisse o exemplo de Cristina Kirchner. A tese é que a disputa política no Brasil seja distensionada e o cenário permita o debate de projetos no próximo pleito eleitoral; e não sua redução à negação de personalidades conflitantes, vis-à-vis o que ocorreu em 2018.

Não foi a primeira vez que Ciro manifestou a ideia e provavelmente não será a última. Entretanto, na segunda-feira, dia 5 de abril, a repercussão foi enorme. À primeira vista, pode-se presumir que o facto de Lula ter recuperado seus direitos políticos e entrado definitivamente na disputa eleitoral de 2022 tenha potencializado a reação.

Entretanto, para além dessa espuma elementar, o que se esconde é uma tentativa de reduzir a disputa política de “profundas e inconciliáveis distinções entre projetos políticos” à “egos, intrigas partidárias e relações de poder”.

A mídia corporativa chegou a manipular as manchetes afirmando que Ciro havia pedido para que Lula fosse seu vice. Ciro jamais faria isso. O que ele faz ao usar a grandeza de Kirchner como exemplo é tornar cristalina a necessidade premente de superar o ódio na política nacional para que haja espaço para a discussão de projetos.

Mas qual a razão da mídia corporativa ter corroborado a “narrativa” lulopetista.

Ora, ora, ora, senão, vejamos.

O cenário ideal para os que querem conservar a ordem vigente no Brasil seria a continuidade de um economia primarizada, focada no agronegócio, serviços, sob a égide de um receituário que tem se revelado um veneno, especialmente em países periféricos.

A receita é “teto de gastos”, tripé macroeconômico, baixíssimo nível de poupança e, consequentemente, investimento. Com a dilapidação da embrionária burguesia industrial, representada pelas grandes construtoras, Brasil caminha para ser o paraíso do varejo, agronegócio, além, claro, dos rentistas.

São em torno desses interesses que a mídia corporativa, entre Ciro e Lula, estará sempre com Lula. Foi reveladora a conversa que Lula teve o jornalista Reinaldo Azevedo. Temas nevrálgicos como o “teto dos gastos” e derivações fiscalistas não foram tratados. Houve uma insistência em acenos a um impraticável “nacional consumismo” repaginado.

Frases como “vamos dar dinheiro ao povo” ou “o povo quer comer uma bisteca no final de semana” não mais podem ser compreendidas sob a luz da pedagogia popular. A ausência de um projeto que questione à fundo a estrutura que empaca o Brasil é também patente nas bocas das demais lideranças petistas.

O PT não é uma ameaça à mídia corporativa!

O PT não ameaça a plutocracia brasileira!

Ao lulopetismo e aos demais conservadores do Brasil é importante reduzir a disputa entre Ciro e Lula à suposta mesquinhez de “egos” ou “interesses partidários”. Isso dificulta a discussão estrutural de um projeto nacional com soberania popular. É aí que se encaixa falas de Lula como: “Ciro está ressentido” ou “Ciro precisa aprender a conversar”.

Por detrás, a necessidade de esfumaçar o cenário, interditar o debate e escamotear o facto de Ciro e PDT serem não terceira mas uma segunda via. Isso porque, no plano econômico, o PT não propõe nada estruturalmente distinto do que aí está.  O mais puro liberalismo com açúcar social.

A disputa nunca foi entre Ciro e Lula. A disputa é entre desenvolvimentismo e liberalismo. Entre trabalho/produção e rentismo. Entre soberania e vassalagem. Entre futuro e passado.

Bastaria um debate entre Ciro e Lula para isso ser esclarecido.

Uma democrática conversa.

O debate revelaria quem está, de facto, à esquerda e conectado com os interesses do povo nessa quadra histórica.

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