Marielle não derrubará Bolsonaro, ao contrário, o fortalece

Marielle não vai derrubar Bolsonaro

As pautas defendidas por Marielle e outras lideranças devem ser objeto de profunda reflexão.

Título polêmico. Por favor, peço que leia todo o conteúdo antes de fazer a crítica. Recentemente, ministrando uma palestra em Portugal, Jean Wyllys afirmou que Marielle Franco iria derrubar Bolsonaro. No dia seguinte, a prefeita de Barcelona, Ada Colau repetiu a ideia. Disse ela: “Preste atenção Jair Bolsonaro, Marielle vai te tirar do poder que hoje usurpas com mentiras, morte, ameaças e crueldade”. Para ambos, será provado a vinculação entre o presidente do Brasil e as milícias responsáveis pelo assassinato da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes. Nossa intenção é demonstrar que a concepção política de Jean Wyllys e Marielle Franco, ideias hegemônicas em seu partido, o PSOL, são parte importante da causa que elegeram e mantém Bolsonaro no poder.

A Guerra

Apesar de ter sido deputado federal por sete mandatos, o presidente brasileiro nunca exerceu hegemonia e qualquer tipo de protagonismo. Suas causas nunca foram e permanecem não representativas do conjunto da sociedade brasileira. Vão desde a defesa, tanto démodé, quanto estúpida, da ditadura militar; redução da maioridade penal, conexa ao punitivismo medieval; e passam pelo moralismo através de temas como aborto e respeito à família tradicional brasileira, berço dos cidadãos de bem. Foram seis mandatos defendendo estas ideias e invisível perante toda a população. Entretanto, em seu sétimo mandato, Bolsonaro foi catapultado do anonimato à “mitologia” e nos cabe refletir os mecanismos por detrás da ascensão.

É interessante o relato de Ciro Gomes quando o pastor Marco Feliciano começou a presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara nos idos de 2013. Partidos de esquerda levantaram uma celeuma imensa contra Feliciano. Ciro, em uma entrevista que não recordo onde, disse algo parecido com: “Deixem essas figuras pequenas onde estão. Quanto mais mexemos, mais crescem”. Ciro estava certo em suas previsões. Raciocínio corroborado pelo próprio presidente da república. Bolsonaro, questionado sobre protestos em relação à suas posições, respondeu algo parecido com: “Estão me promovendo”. Este cenário também me faz lembrar uma música do Raul Seixas, em que o gênio diz: “Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral”. E foi assim que personagens como Bolsonaro e Jean Wyllys começaram a ascender. Forças diametralmente opostas iniciaram uma guerra e se retroalimentaram, emergindo, ambos, mais fortes de cada combate. É consenso que nessa guerra, Jean Wyllys e demais lideranças de seu partido, carregam consigo a hegemonia moral e intelectual dos valores universais associados aos direitos humanos. Entretanto, este não é o ponto em discussão. O que estamos trazendo à mesa é a crítica ao método, assim como a estratégia em como este combate vem sendo travado. Pelos resultados parciais, um lado está claramente em desvantagem.

O cenário

Os últimos dez anos foram atípicos no Brasil. O crescente desgaste da hegemonia de um mesmo partido político, acompanhada de crise e exaustão do projeto baseado em ciclos de consumo; mudança do cenário internacional com queda dos preços das commodities; equívocos econômicos que trouxeram desemprego e corrosão do poder de compra da população; além, claro, da já constatada guerra híbrida que objetivava realinhar a maior economia latina aos interesses estadunidenses. No campo social, houve um avanço sem precedentes das igrejas pentecostais. As igrejas passaram a levar às populações mais carentes o que o ciclo do consumo foi incapaz. Percepção de existência. Dignidade. Olhar de respeito. As igrejas ocuparam o vácuo de todas as esquinas das periferias brasileiras. Por detrás, soma-se a teoria da prosperidade. Quaisquer tímidos avanços sociais pelos quais os cidadãos passaram, agora, estavam absolutamente desassociados da esfera da gestão pública. O ingresso nas universidades, permitidas pela criação do ENEM, SISU, REUNI e cotas, tornou-se produto do esforço individual no complexo universo da psicologia popular. O fenômeno representa a vitória da concepção mais retrógrada de meritocracia. Também ganha destaque o fortalecimento de facções criminosas, como o PCC, que passaram a levar com mais intensidade, terror aos moradores dos bairros pobres das cidades brasileiras.

 O método

Imersos em um Brasil medieval e dogmático, optou-se por centralizar discussões, que apesar de legítimas, eram periféricas aos interesses coletivos. Enquanto a população estava preocupada com a violência batendo em sua porta; com o declínio de seu poder de compra; com a busca por empregos, precarização e rebaixamento de seu padrão de vida; além de absolutamente alinhada aos valores conservadores advindos do avanço da teoria da prosperidade… O que fez a esquerda? Optou por centralizar lutas idetitárias como se estivéssemos mergulhados em uma realidade escandinava. O combate à homofobia, misoginia e racismo passaram a confrontar suas antíteses de forma ainda mais violenta. Um combate desencaixado das lutas de classes e da realidade socioeconômica da população. Obedecendo às leis físicas da ação e reação, essa guerra dicotômica, gerou tanto segregação, quanto promoção de seus soldados. Bolsonaro e Jean Wyllys foram eleitos. Enquanto coletividade, restavam duas escolhas ao povo. Posicionar-se de um lado ou outro. Hoje é sabido de que lado o povo se posicionou. As causas defendidas por lideranças como Jean Wyllys e Marielle Franco jamais poderiam ser desconectadas de um projeto de nação, e especialmente, da psicologia popular.

Os paradoxos

Na mesma palestra em que Jean Wyllys afirma que Marielle Franco derrubará Bolsonaro, também diz: “O que deu a vitória a Bolsonaro foi a homofobia. Foi a homo-lesbo-transfobia”. Nesse ponto há uma convergência fundamental de ideias com o autor. Claro que seria muito reducionismo ignorar os problemas econômicos, sociais e o antipetismo que emergiu na sociedade brasileira, para delegar somente à homo-lesbo-transfobia, razão última para eleição de Bolsonaro. Por outro lado, havia um leque de candidatos com uma agenda neoliberal, a exemplo de Alckmin, Meirelles e Amoedo, que poderiam ter sido eleitos. Os métodos de como debatemos as pautas defendidas por Jean, Marielle e outras lideranças devem ser objeto de profunda reflexão. O centro do debate são os interesses de toda a população em torno dos quais orbitam e se conectam as históricas lutas identitárias. Nunca o inverso. Se perdemos a batalha, cabe reinventarmos os métodos, sob pena de perdermos a guerra.

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