Pautas identitárias juntas não resultam em interesse nacional

Interesses identitários como peças de um quebra-cabeça: o que resultaria de sua solução?

A sociedade civil brasileira vem se dividindo em justos e legítimos interesses identitários após o processo de redemocratização. Se antes os interesses corporativos predominavam, hoje são diversas as causas pelas quais os cidadãos compõem o espectro político brasileiro. As razões para este impulso vão desde modificações nas estruturas e relações produtivas, a evolução dos meios de comunicação, assim como a organização e amadurecimento da incipiente e recentemente interrompida democracia brasileira.
Portanto, emergiram ou ganharam maiores proporções movimentos como ambientalistas, atingidos por barragens, indígenas, LGBT, negros, prol reforma agrária, religiosos, entre outros. Cada um destes movimentos, sejam de inserção local, regional ou nacional, carregam uma série de pautas e reivindicações que forjam a linha de frente de suas lutas e ideais.
Entretanto, a pergunta que se coloca é qual seria a resultante final se cada peça desse quebra-cabeça de interesses fosse atendida em suas legitimas reivindicações. Daria Brasil? A pergunta, que parece simplória e despropositada, traz serias consequências para a gestão pública nacional.
Quando problematizei sobre este tópico pela primeira vez, incitado por uma palestra de Ciro Gomes, logo me veio uma metáfora advinda da experiência acadêmica. A ciência ocidental, ainda influenciada pela filosofia de René Descartes, tenta dividir o objeto de análise também em peças ou partes para o melhor entendimento do todo. As áreas e esforços de pesquisa que se propõem a juntar estas peças são classificadas em interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Simplificando, a interdisciplinaridade seria a junção ou soma de disciplinas sob uma perspectiva metodológica comum, sendo os seus interesses mantidos. Ou seja, interesses identitários somados na gestão pública associados à sua manutenção, tal qual os são. Já a transdisciplinaridade busca superar o conceito de disciplina, perseguindo uma teoria ou consenso, novo e unificado que somente pode emergir da integração absoluta e destruição das fronteiras existentes entre disciplinas. Aí estaria estabelecido o conceito real de gestão pública.
A figura resultante de quando se tenta montar o quebra-cabeça através das pautas e interesses identitários provavelmente será um ajuntamento amorfo de peças desconexas que nem de longe parecerá com um país complexo como o Brasil. A gestão pública brasileira não pode ser um amontoado de interesses identitários traduzidos em políticas públicas. Ao contrário, estes interesses, que são justos e legítimos, precisam se amoldar a um plano de país, pois, muitos destes interesses ou colidem ou se complementam.
Tanto as gestões do PT, quanto as do PSDB, com suas devidas orientações sociais e econômicas, não fizeram emergir um projeto de gestão de país que colocassem o planejamento dos interesses nacionais na linha de frente de suas ações. Se o projeto de nação não for construído e colocado como orientação final para o planejamento de curto, médio e longo prazo, teremos avanços e retrocessos cíclicos no que concerne às pautas identitárias, enquanto o país, com uma orientação geopolítica nebular, flutua de forma “brawniana”, em um universo economicamente já bem definido e dividido; simplesmente por não saber para onde ir.
 
 

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