Do Brasil se ouve o último suspiro do Consenso de Washington

Do Brasil se ouve o último suspiro do Consenso de Washington

O Consenso de Washington – CW foi um termo cunhado em 1989 pelo economista John Williamson.  Significava “o mínimo denominador comum de recomendações de políticas econômicas que estavam sendo cogitadas pelas instituições financeiras baseadas em Washington e que deveriam ser aplicadas nos países da América Latina, tais como eram suas economias em 1989″. Quem eram as essas instituições financeiras? Basicamente eram o FMI (Fundo Monetário Internacional), o Banco Mundial e a OMC (Organização Mundial do Comércio). Mesmo que não tenha sido a intenção primeira do seu autor, o CW se tornou a quintessência das recomendações/imposições dos bancos de financiamento para a liberação de créditos aos países da América Latina. A receita é sumarizada em dez tópicos. Entretanto, basta que nos atentemos à quatro para nos remetermos à tragédia pela qual atravessou o Brasil na década de 90:

– Taxas de juros determinada pelo mercado;

– Privatização de empresas estatais;

– Livre comércio, ou seja, liberalização de importações e remoção de proteção comercial;

– Disciplina fiscal.

Como resultado desse conjunto de medidas tóxicas ao desenvolvimento, os países mais disciplinados em seguir à risca os mandamentos do CW, foram também os que mais se fragilizaram em suas economias. Brasil de Fernando Henrique Cardoso e Argentina de Menem são paradigmas desse fracasso. Fortaleceram-se os países que recusaram o receituário, a exemplo da Malásia ao longo da crise de 1997. Ademais, as raras nações que estão conquistando se desenvolvendo, como República da Coreia e China, foram aquelas que rejeitaram drasticamente o CW. A história demonstrou que nenhum país se desenvolveu ou poderia se desenvolver sem 1. proteger sua indústria, 2. abdicando de altas taxas de investimento e de uma 3. forte coordenação estatal. O economista Ha-Joo Chang no livro “Chutando a Escada” interpreta o CW como uma estratégia geopolítica operada pelos países centrais para impedirem a aplicação da suas fórmulas de desenvolvimento aos Estados periféricos. Assim, trocaram a prescrição de um remédio benéfico ao desenvolvimento por um veneno. Droga que os condenariam ao subdesenvolvimento. Ou seja, chutaram a escada que os permitiram ascender para que ninguém mais o fizesse.

O ventos da história descortinaram o estelionato do CW com crises de 2008 e mais recentemente, com a onda nacionalista representadas pela eleição de Trump e o processo do Brexit. O pacote de estímulos de Biden é da ordem de U$1.9 trilhão. Os Estados Unidos seguem ampliando sua base monetária desde de 2008. Hoje se fala em um Novo CW que mais parece com o New Deal que a toxina administrada à América Latina ao longo dos anos noventa. O FMI divulgou um relatório “Monitor Fiscal” na última quarta-feira em que defende explicitamente pacotes de estímulos econômicos, além de taxação de altas rendas e riquezas.

Na contramão da história, uma ilha chamada Brasil continua tomando o veneno “noventista” produzido em Washington. Segue apostando na privatização de monopólios naturais e demais ativos estratégicos. Entrega ao mercado seu Banco Central, assim como a administração da taxa de juros. Zera investimento público esperando uma corrente de dólares vindas dos céus. A precarização das relações de trabalho atingiu tal nível que o direito trabalhista corre risco de extinção. O processo de desindustrialização segue ininterrupto. PETROBRAS, uma gigante com ramificações em toda a economia nacional tem sido reduzida a uma mera bombeadora de petróleo. Paulo Guedes deve se envaidecer. É um dos Chicago Boys e precursores em disseminar o estelionato nessa sofrida América Latina. É o derradeiro de uma leva. Com o agravante de conduzir a economia brasileira. Hoje leio que, de acordo com a OCDE, o Brasil é a única grande economia do planeta em desaceleração. Ora, ora, ora… Para tudo existe uma explicação, não é verdade?

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