Ciro Gomes e Lula se Olhando

O debate entre Ciro Gomes e Lula

Há um tempo começou a circular um apelo por um debate entre Ciro Gomes e Lula. O pedido ao debate, que já partiu do próprio Ciro, sequer foi respondido por Lula. O encontro seria algo natural caso houvesse uma preocupação legítima para a tragédia que recaiu por sobre o Brasil.

Há consenso, tanto para os que defendem uma candidatura Lula, quanto aos que almejam implantar o Projeto Nacional de Desenvolvimento encabeçado por Ciro, que uma “impossível” desistência de um lado, garantiria a vitória do outro. Ademais, seria fundamental um debate sobre a realidade brasileira com as duas forças políticas mais conectadas com as organizações civis preocupadas em construir uma nação justa e soberana.

Recorrer ao passado é o que resta frente a impossibilidade nos dias atuais. Graças a internet é possível resgatar um debate com ambos – vídeo após o post. Foi o da BAND de 2002, pleito em que Lula saiu vitorioso. Há um momento que merece atenção. Augusto Nunes, jornalista “conservador” e polêmico, pergunta sobre os limites éticos para a conciliação entre forças políticos. Complementa sobre a viabilidade e/ou inviabilidade entre antagônicos.

Ciro é sorteado para responder a pergunta e o próprio Augusto Nunes escolhe Lula para comentar. Ciro responde afirmando que a conciliação é uma tradição da história brasileira e de outros países. Cita o desenrolar da Revolução Farroupilha no Brasil, o pós ditadura no Chile assim como o pós guerra civil na Espanha.

Portanto, Ciro louva a conciliação com o “porém” em serviço do espírito público. Sendo este o limite. Como as reformas estruturais que o Brasil necessitam de três de cada cinco deputados e senadores é fundamental o entendimento em prol da reformulação institucional brasileira em favor do interesse nacional.

Em seu comentário, Lula desloca a discussão para a questão de ordem ética ao afirmar que apoio deve ser recebido apenas por cada um dos eleitores brasileiros. Alianças políticas devem ter limites éticos e seriedade por implicarem em participação em decisões relevantes do governo, podendo trazer prejuízos à sociedade brasileira. Na sequência o ex-presidente critica o sistema política que estaria gerando “promiscuidade” nas alianças partidárias.

Diante do que disse Lula, Ciro é obrigado a dedicar testemunho pessoal à tréplica. Afirma que a questão ética é premissa e obrigação. E volta a louvar a superação de antagonismos políticos, desde que, como condição sine qua non, o interesse nacional esteja presente. A realidade doméstica e internacional demandam uma ampla capacidade de conciliação.

Nesta altura o leitor já deve está refletindo as razões pelas quais este trecho do debate ocorrido na disputa eleitoral de 2002 é tão relevante.

Lula e seu partido se opuseram a todas as inflexões que demandavam suplantar antagonismos para efetivação de acordos de conciliação apresentadas pela história. Opuseram-se a Tancredo Neves no momento de sua eleição; ao texto final da constituição de 1988; a posse de Itamar Franco após impeachment de Collor; ao plano real. Até aí, a resposta de Lula está muito coerente com sua prática.

O que fez Lula quando chegou ao poder?

Lula parece ter esquecido suas palavras apesar de ter reduzido a resposta da pergunta à dimensão ética. A amnésia o acometeu especialmente em seu segundo mandato. Eduardo Cunha, José Sarney, Marcelo Crivella, Romero Jucá, Renan Calheiros, Sérgio Cabral e Michel Temer são apenas alguns nomes com que Lula se conciliou. Mas esse não é o maior agravante.

Lembram da condição sine qua non para a conciliação ressaltada por Ciro?

O interesse público e nacional.

Já virou jargão que em 14 anos à frente da presidência da República a única reforma estrutural realizada pelo PT foi a tomada de três pinos. Nada foi proposto em nome destas conciliações reprováveis que antes eram demonizadas.

Isso é tudo?

Não. Os mesmos que defendiam os limites éticos para a conciliação, acusam de “lacerdismo” quem hoje condena os acordos “não republicanos” que resultaram em escândalos simbólicos de corrupção.

A história é demolidora e recai indistintamente sobre todos. Entretanto, mesmo com ela a tiracolo, torna-se difícil “endurecer sin perder la ternura” quando o assunto é “lulopetismo”.

 

 

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