Imagens de rolos de filmes destruídos com o incêndio da cinemateca.

O crime contra a Cinemateca tem nome: tripé macroeconômico e “teto dos gastos”

Não é possível ignorar o desmonte que o governo tem empreendido à setores específicos. Quando se trata de meio ambiente e cultura a ordem do dia foi estabelecida há tempos: “antes de construir é preciso desconstruir muita coisa no Brasil”.

O incêndio na cinemateca não pode ser visto com surpresa. A instituição, criada em 1940, sofre com o abandono há anos. Foi em 2018 que a gestão Temer concedeu a administração da Cinemateca à uma OS – Comunicação Educativa Roquette Pinto.

A concessão era datada para se realizar até 2021. Entretanto, Abraham Weintraub rescindiu o contrato da OS com a TV Escola, o que também anulou o acordo com a Cinemateca. Desde então a instituição se encontrava abandonada.

Já se temia uma desastre semelhante ao que abateu o Museu Nacional e o Museu da Língua Portuguesa.

O Ministério Público ajuizou ação civil pública em 15 de julho contra a união frente a situação e expondo as condições de degradação do acervo e o perigo real de incêndio. Problema perdura ainda hoje.

O secretario especial de Cultura, Mario Frias e o ministro do Turismo Gilson Machado estão na Itália atendendo a uma conferência. Portanto, o governo está sem os braços decisório que seriam urgentes neste momento de crise.

Frias levantou de imediato a hipótese do incêndio ter sido criminoso e solicitou uma perícia da Polícia Federal.

Não restam dúvidas que há um esforço do governo em destruir setores específicos da administração. Apesar disso, o problema de financiamento é sistêmico e está enraizado em toda a máquina pública.

Não há órgão ou instituto de administração federal que não esteja com orçamento estrangulado e sobrevivendo com recursos aquém dos necessários. Também não é algo recente. Atravessa gestões federais inteiras.

A razão é o mesmíssimo modelo econômico adotado.

Aqui se esconde o verdadeiro “criminoso” buscado por Frias.

Foi ao longo da implantação do plano real que se estabeleceu um pacto de juros do Brasil. Incialmente pensado para atrair dólares e garantir a sobrevida da nova moeda, o sistema de juros substituiu a inflação como ferramenta de transferência de renda do povo às elites. Mantém-se até hoje. Composto pelo “tripé macro econômico”.

Câmbio flutuante foi adotado de forma apreciada e aplicado como principal ferramenta de controle inflacionário; em desfavor da indústria.

Metas de inflação desconectadas das condições de empregabilidade; usualmente controlada com aumento de juros mesmo não sendo originários da demanda.

Por último, superávit primário. Gordura que alimenta o sistema da dívida pública.  Atrativo para investimentos externos juntamente com os altíssimos juros.

A lógica fiscalista se intensificou ainda mais com a PEC 55/2016 – teto dos gastos públicos.

A PEC estabelece que os gastos do governo pelos próximos 20 anos – até 2036 – devem crescer de acordo com a inflação. Os gastos com o serviço da dívida estão fora da emenda. Uma obviedade, considerando que são motivação.

A equação — aqui apresentada com as devidas omissões em prol da síntese — é corresponsável pela destruição da indústria e precarização da máquina estatal. Ademais, é uma fórmula estúpida para alcançar saúde fiscal. Considerando que o custo para reconstruir infraestruturas completamente destruídas como o Museu Nacional, Cinemateca, rodovias e universidades superam, em muito, o custo para suas manutenções.

O acordo tácito atravessou governos tucanos, petistas e chegou à Bolsonaro/Guedes através da “Ponte para o Futuro”, construída por Temer.

Quando se está diante de tragédias como o incêndio do Museu Nacional ou da Cinemateca é necessário firmeza com a gestão que nega a construção de séculos de história.

Mais que isso. Deve-se por em perspectiva a lógica econômica geradora da realidade que acomete múltiplos setores do aparelho estatal brasileiro.

Pacto que precisa ser quebrado.

Não há dúvida que Abraham Weintraub, Gilson Machado, Mario Frias devem muitas explicações diante desse crime. Entretanto, não estão sozinhos.

Os defensores do modelo econômico também assinam a ruína.

Desnecessário afirmar quem são.

 

 

 

 

 

 

 

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