Qual seria a posição política de Cazuza caso vivo estivesse?

Cazuza teria batido panelas?

Há alguns dias declarações do Lobão pipocaram em “timelines” trazendo contradições do governo eleito. Governo que o representa. As participações no debate político de Lobão nos últimos anos ainda é motivo de incômodo. Não pelo Lobo em si, mas por sua geração. Qualquer “oitentista” que viveu, ao menos marginalmente, a cultura daquela década, deve compartilhar este sentimento. Lobão, a exemplo de outras famosas personalidades, deu uma guinada à direita. Ele nega. Talvez, a resposta para a transformação na direção da defesa de valores conservadores esteja justamente na negação. O leitor se encontrará novamente com este ponto em instantes. O fato de não ser um fenômeno isolado, traz-nos uma dúvida. E os que se foram? Como estariam se comportando diante dessa bagunça brasileira. Cazuza, contemporâneo e amigo de Lobão, teria também batido panelas e se vestido de verde e amarelo? Ou teria adotado uma postura mais coerente com suas letras, a exemplo de Ney Matogrosso, de quem era mais que amigo? E se o tempo não tivesse parado para Cazuza?

A geração dos anos 80 conviveu com o final da ditadura.  Imersos neste recorte histórico, estavam divididos entre o autoritarismo com consequências para a classe artística e a insurgência revolucionária que pedia doses de desobediência civil. Dois lados bem definidos. Tanto Lobão quanto Cazuza flertaram com o Partido dos Trabalhadores (PT). É histórica a participação do Lobo no programa do Faustão, exatamente no dia das eleições de 1989, quando defendeu e cantou “Lula”. Ninguém em sã consciência imaginaria que décadas depois o Lobo estivesse uivando ao lado de Olavo de Carvalho.  Já Cazuza afirmou que acreditava na ingenuidade do partido. Também elogiou Luiza Erundina e se dizia socialista. Naqueles tempos, as bandeiras da esquerda se confundiam com as das liberdades democráticas para que o dia pudesse nascer mais feliz. Brasil atravessava uma dolorida transição. Também havia instabilidade política e econômica, mesmo que os traumas fossem distintos dos atuais. Não eram apenas membros de organizações revolucionárias e leitores de Marx que estavam entrincheirados. Somavam-se os, hoje, classificados como liberais. Àqueles que prezam pelas liberdades individuais, mas que são conservadores na dimensão econômica da “coisa pública”. Lembremos que o senhor José Serra foi presidente da UNE. Discursou ao lado de João Goulart em 1963. Conseguiu, em um momento de inflexão histórica, ocupando o cargo de presidente da UNE, criticar Jango; dele, ouviu a resposta “Há generais loucos atrás de ti. Eu é que não deixo eles te fazerem mal”. O Lobo recentemente declarou que nunca foi de esquerda. Que na verdade, sempre foi conservador.  Daí a negação da guinada anteriormente citada. O comportamento “oitentista” não era um flerte com os vermelhos, mas um posicionamento contrário aos reflexos do autoritarismo que findava. Os liberais conservadores estavam mesclados com toda gama do espectro político. Cazuza, em célebre entrevista ao Jô Soares, dá-nos uma pista para alimentarmos a imaginação. “Eu sou socialista. Eu acho que para um país de terceiro mundo, pobre, onde ainda tem fome… eu acho que socialismo é a única via. O socialismo democrático adaptado ao brasileiro e a maneira da gente ser. Isso é uma espécie de ideologia. Mas têm outros tipos de ideologia também. De vida. De caráter. Ideologia é pensar junto”. Portanto, Cazuza não estava apenas enfileirado contra as marolas do regime autoritário que findava no Brasil. Ele tinha uma percepção, mesmo que empírica e não lida, de um socialismo democrático. E mais, um socialismo democrático adaptado à realidade brasileira. “Para mudar alguma coisa, a gente teve que gritar, se drogar, ir para a rua e enfrentar nossa própria fraqueza. Era uma maneira de não se render, de não ficar careca, careta”.

         É ruim ver personalidades do rock nacional como Dinho Ouro Preto Capital Inicial, Roger Ultraje a Rigor e Lobão assumindo pautas conservadoras. Lobo chegou a dizer que o Rock é elitista e conservador.  Também se tornaram famosas as imagens de Dinho com o juiz Sérgio Moro.  Entretanto, confrontando suas declarações com as obras de Cazuza, é permitido sonharmos que caju estaria, hoje, lutando, a seu modo, pelo socialismo democrático. Ao ver o lobo de hoje, talvez dissesse: “Você está vivo. Esse é seu espetáculo. Só quem se mostra se encontra. Por mais que se perca no caminho”.

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