Presidentes Bolsonaro e Trump diferem mais que assemelham

Bolsonaro cá, Trump lá?

É cada vez mais frequente ouvirmos comparações entre o presidente americano Donald Trump e o pré-candidato à presidência da república Jair Bolsonaro. Também são comuns comparações entre Bolsonaro e governos de extrema direita de caráter nacionalista europeus. A recorrente comparação é consequência de semelhanças entre os dois personagens. Apesar de superficiais, as características comuns à ambos são exaustivamente exploradas pelas corporações de comunicação que preferem assuntos de caráter moral e social às dimensões estruturais do sistema econômico/politico. Declarações polêmicas sobre imigração, porte de armas, comunidades LGBT são tópicos usualmente expostos pela imprensa oligopolizada. Entretanto, o que melhor define o gestor é o marco econômico que se localiza a composição da orientação politica de seu governo. Assim, a pergunta que remanesce é: Bolsonaro seria o Trump brasileiro?
Seria difícil responder esta pergunta até recentemente. Bolsonaro falava pouco sobre macroeconomia e se prendia a assuntos pontuais. Devido a sua crescente participação na mídia e o fortalecimento de sua pré-candidatura, a imprensa descobriu uma fraqueza em torno de assuntos econômicos; o que resultou numa preocupação sobre as soluções que seriam adotadas em um eventual plano governo. Quem não lembra da dificuldade do candidato em comentar a manutenção do “tripé macroeconômico”? Deste processo emerge o nome de Paulo Guedes como responsável pela equipe econômica responsável pelo plano de governo e também como provável indicação à pasta do Ministério da Fazenda. Mas quem é Paulo Guedes? Paulo Guedes é um Ph.D. em economia pela Universidade de Chicago. Tem uma trajetória respeitada no ensino superior além de ter se tornado um empresário na área, tendo fundado a Ibmec, BR Investimentos e BR Educacional. Foi sócio fundador do Banco Pactual. Escreve para meios de comunicação impressos com frequência. Assim, Paulo Guedes, sendo forjado na escola de Chicago, é bastante alinhado com princípios liberais associados ao livre mercado e “desregulamentação econômica”; bem exemplificada com o termo “laissez-faire”.
“A grande sociedade aberta está além da direita e da esquerda. Quem estiver preocupado com isso ainda está saindo da Revolução Francesa no século XVIII. Aliás, esquerda naquela época eram os liberais. Se eu vivesse naquela época, estaria lá, com o Tocqueville, lutando contra a Velha Ordem.”  Paulo Guedes.
Ao mesmo tempo que a raiz militar de Jair Bolsonaro parece associada a princípios nacionalistas, a indicação da equipe para forjar o plano econômico de seu governo é absolutamente liberal e favorável a progressiva abertura da economia brasileira. Esses fundamentos e praticas econômicas são  similares aos de Trump?
Não. Donald Trump tem adotado medidas anticíclicas de caráter intervencionista desde que assumiu a presidência dos Estados Unidos. A sua vitória, em si, já pode ser interpretada como uma falência e derrota do discurso liberal, que nas últimas eleições estava mais alinhado com a candidatura de Hillary Clinton. Trump tem feito um esforço sistemático em atrair a produção de multinacionais para o seu território, a fim de gerar mais empregos e dinamizar a economia. Tem discutido política cambial em encontros bilaterais e feito duras críticas ao comércio deficitário que mantêm com a China. Ademais, Donald Trump irá injetar US$ 1,5 Trilhão para investimentos em infraestrutura. Todo este investimento será financiado por déficit orçamentário, na contramão da cartilha liberal e do que vem sendo defendido pelos liberais brasileiros. Vide a PEC dos gastos públicos. Estas ações, por mais que não estejam bem representadas no discurso oficial vendido à periferia mundial, estão mais alinhadas com o Keynesianismo, que propriamente o liberalismo econômico; privilegiando setores produtivos da economia real, focando em geração de emprego e renda em detrimento do setor financeiro. 
Bolsonaro definitivamente não é o Trump brasileiro. Por detrás da capa de nacionalista, vezes manchadas pela vassalagem explícita à bandeira americana, esconde-se propostas liberais de financeirizacao e desregulamentação da economia. Nada distinto do que Aécio Neves e agora Michel Temer vêm propondo e agora concretizando com a chamada Ponte Para o Futuro. Paulo Guedes, preferido por Bolsonaro, está apostando em novidades e outsiders em 2018.
“Se as candidaturas à “esquerda” e à “direita” têm limites naturais de representatividade, e, portanto, de crescimento, e a maioria dos eleitores de centro será disputada com vantagem por “outsiders” diante dos candidatos convencionais, torna-se bastante provável a vitória eleitoral desses “outsiders” em 2018, não apenas para a Presidência da República, mas também para governadores e para uma avassaladora renovação parlamentar, como ‘nunca antes na História deste país.”  Paulo Guedes.
Para além da maquiagem, não há nada de novo em Jair Bolsonaro. Apenas a mesma cartilha já lida por Fernando Henrique Cardoso e agora por Michel Temer. Resta saber se nós, brasileiros, vamos fazer a escolha por continuar lendo a mesma cartilha, ou escolheremos caminhos econômicos alternativos em 2018; como os tomados recentemente pelos Estados Unidos e por Portugal. Caminhos trilhados através do favorecimento da economia real em detrimento ao setor financeiro.

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