A união da esquerda contra Bolsonaro e o factor “Lula livre”

A união da esquerda contra Bolsonaro e a aresta “Lula livre”

Terça-feira, dia 26/03, houve um encontro com o objetivo de unir a esquerda. Fernando Haddad PT, Guilherme Boulos  PSOL, Flavio Dino  PcdoB, Ricardo Coutinho PSB e Sônia Guajajaras PSOL, reuniram-se em Brasília para um debate sobre a conjuntura nacional e um chamado à união das forças democráticas contra o desgoverno instalado. A principal dissidência do encontro foi o PDT, atualmente liderado por Ciro Gomes. Não ficou claro se houve convite e se Ciro o declinou. De qualquer modo, após o encontro, Flávio Dino e Guilherme Boulos declararam que se esforçarão para que a composição seja mais ampla. Seriam incluídos nomes como o de Ciro, Marina Silva e Roberto Requião. Após a conversa, os integrantes divulgaram o produto de suas reflexões em carta amplamente divulgada. Alguns pontos são importantes e consensuais. Os retrocessos e ameaças representadas pela Reforma da Presidência proposta pelo governo; a luta pela soberania nacional perante o “entreguismo” de Bolsonaro; e a luta contra discursos em prol de regimes autoritários como o golpe civil-militar de 1964. Entretanto, por sobre o arcabouço de defesa do Estado Democrático de Direito, abriram espaço para o famoso “Lula livre”. Flávio Dino, em entrevista à meios de comunicação alternativos, reforçou a ideia. Dino defende que está em andamento uma tentativa de sufocar o sindicalismo, não só o de Vargas, mas também o “novo sindicalismo” de Lula. E um ponto central do que se precisaria fazer seria lutar por “Lula livre”. Não se deveria secundarizar o lulismo. O lulismo seria a base de uma futura governança progressiva, mesmo que depois, dialeticamente, seja preciso revisá-lo. Ora, ora, ora, senão, vejamos.

É consensual que uma das forças hegemônicas responsáveis pela eleição de Bolsonaro foi o “anti-petismo”. Ademais, o esgotamento do projeto hegemonizado pelas gestões petistas se exauriu, de tal sorte, que há uma crise de alternativas econômicas e políticas para tirar o Brasil desse encalacrado. Essa crise está clara na carta escrita pelas lideranças que propuseram a união da esquerda. Na carta, a única proposta apresentada é, pasmem-se, a união da esquerda. O resto é negação do que aí está. Ora, o PDT de Ciro vem há mais de três anos debatendo um projeto aberto, complexo e em constante aperfeiçoamento com o conjunto da sociedade. São pautas de todos os brasileiros e não de uma parcela da população. Muito menos, de uma liderança importante do setor progressista. Este projeto foi visto como uma ameaça ao hegemonismo por setores da esquerda. Combatido por várias vias, muitas desleais, outras, ilegais e antidemocráticas. Após este passado recente, pede-se união do campo democrático, sem revisão daquele discurso démodé, perdido no vazio da negação e disperso em lutas identitárias. Isso não parece nonsense?

Não. Faz todo sentido. O projeto do PDT, encabeçado por Ciro é o único projeto progressista na mesa. É um projeto de união nacional. Um projeto nacionalista. Assim, Ciro desponta como a principal liderança capaz de unir forças ao centro e à esquerda do espectro político. Quem estaria à altura de Ciro diante dos últimos acontecimentos? Haddad? Este encontro não representou uma tentativa de união da esquerda. Pelo contrário, trata-se de uma tentativa de manutenção do “hegemonismo” que aqui nos trouxe. Também, por isso é pouco provável que Ciro compareça à próxima reunião.

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