Neoliberalismo e luta pelo monopólio do adjetivo “esquerda”

A luta pelo monopólio do adjetivo “esquerda”

Estabeleceu-se como estratégia do bloco de partidos hegemonizados pelo PT —  aqui me refiro à PSOL e PCdoB —  definirem-se como representantes únicos da esquerda brasileira. Seriam protagonistas das generosas pautas do setor progressista. Uma tática política que não convence. O que deveria orientar a luta seria a formação de maiorias políticas que viabilizassem coalizões com força concreta para a defesa de pautas universais. Entretanto, trata-se de um caminho legítimo. É estupefaciente observar o  PT se colocando como esquerda radical. Sigamos!

Lideranças que vão de Lula à Haddad, passando por atores de menor expressão, empurram políticos adversários ao campo da “direira” de forma deliberada. Reserva de eleitorado? Aqui não importa o que as lideranças petistas fizeram “no verão passado”. Não interessa a lembrança da prática das maiores taxas de juros do planeta, ausência de reformas estruturais ou manutenção de uma base tributária cruelmente regressiva. Muito menos indicações ‘pouco republicanas’ de agentes políticos como o digníssimo Eduardo Cunha. O ilustre montou um verdadeiro feudo em FURNAS. Eunício Oliveira, Temer, Jucá e tantos outros também não vêm ao caso.

O passado é uma roupa que não nos serve mais, como disse o eterno conterrâneo. Assim, mais importante é o hoje. Seria interessante que os “radicais” incorporassem alguns tópicos inegociáveis para quem se diz à esquerda:

  1. Impeachment de Bolsonaro;
  2. Revogação do “teto dos gastos públicos”;
  3. Defesa que empresas e administradoras de monopólios naturais estratégicos pertençam ao Estado Brasileiro;
  4. Revogação da autonomia do Banco Central;
  5. Proposta de reformas, especialmente a tributária, prevendo a taxação de lucros e dividendos;
  6. Abandono do tal tripé macroeconômico.

Paremos por aqui para não deixar a tarefa muito difícil. Os seis tópicos listados estão em qualquer discurso de Ciro Gomes. Candidato empurrado para a direita por Haddad. Em entrevista recente, Reinaldo Azevedo, liberal convicto, questionou Lula sobre a necessidade da manutenção do caráter público de empresas. Uma clara e indisfarçável apologia às privatizações. Lula deveria ter feito uma defesa intransigente da necessidade do Estado permanecer firme em setores estratégicos da economia. O que se ouviu, no entanto, foi uma conciliação.

“Mas a PETROBRAS é uma empresa de economia mista, Reinaldo. Assim como o Banco do Brasil”.

A retórica per ser jamais será suficiente para sustentar a qualificação. O Brasil viu filme parecido com “social-democracia”. O significado de PSDB é Partido da Social Democracia Brasileira, lembram? Alguém enxerga Olof Palme em Dória? O máximo que a luta pelo monopólio do adjetivo “esquerda” alcançará é o esvaziamento do termo. Exatamente como ocorreu com “social-democracia”. Estão transformando expressões históricas e simbólicas em “figuras de retórica oca”.

Esquerda é ideia, exemplo e militância!

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