A celebração brasileira de 16 anos sob governos neoliberais

Ainda repercute o encontro entre Lula e Fernando Henrique Cardoso sob os auspícios do ex-ministro Nelson Jobim. A repercussão se deve mais ao simbolismo do gesto que a resultados concretos. Também a uma disputa recente pela hegemonia do que se convencionou chamar “esquerda”. O PT vem reivindicando o título de único partido de esquerda do Brasil desde que Ciro Gomes ingressou nos quadros do PDT. O resto seriam um “ajuntamento de siglas com interesses eleitorais”. Palavras de Lula.  Posição estratégica estabelecida mais fortemente após as eleições de 2018. Ciro ameaçava o destino de uma parcela dos votos do setor progressista em um cenário de polarização contra Bolsonaro. PT pretendia hegemonizar o campo. Portanto, esforçaram-se para deslocar Ciro à centro-direita. Quem não se lembra das palavras de Haddad colocando Ciro como candidato à direita? O programa do PDT é abissalmente mais avançado que os programas recentemente defendidos pelo PT. Assim, Ciro teria muita dificuldade de angariar apoios de partidos políticos de centro e centro-direita.

A pandemia e a condução catastrófica de Bolsonaro fez o cenário mudar. Rejeição ao Bolsonaro tem aumentado vertiginosamente e a tendência é de derretimento eleitoral progressivo. O fenômeno recente abriu uma avenida para candidaturas que vão da centro-esquerda à centro-direita. O que favorece Ciro. A mudança fez com que o PT transformasse sua candidatura como de centro em um passe de mágica. Deixou de existir aquele partido que rejeitava abaixo-assinados em favor da democracia por discordar da participação de alguns agentes políticos. O partido que rejeitou uma frente ampla para encabeçar uma de esquerda… Delírio. Do maior partido de esquerda da América Latina e único do Brasil surge o PT acolhedor; que poderia abraçar até o PSDB não fosse as pequenas ironias do caminhar. Um azar histórico. “Lula é de centro”, disse hoje Jaques Wagner ao jornal Valor Econômico.

Como é possível uma organização política se apresentar de forma tão dispare e camaleônica em um intervalo temporal tão curto? Simples, amigos de luta. O PT se fez liberal. Nasceu como crítica à esquerda nacionalista. Surgiu do mesmo berço intelectual que gestou o PSDB. Daí o amor PTUCANO. Apenas abrandado por “azar histórico” e não por distintas concepções de marco de economia política. A falta de enraizamento ideológico associado ao lastro neoliberal é a essência do pragmatismo inescrupuloso.

Existe uma dimensão positiva no cenário. O fim da falsa polarização PTUCANA abre uma avenida para que a corrente política compromissada com um Projeto Nacional de Desenvolvimento se estabeleça. Trata-se de uma fratura histórica que passa a ser exemplarmente preenchida.

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