A armadilha do fatalismo. Uma resposta a Felipe Neto.

O “youtuber Felipe Neto – FN escancarou seu alinhamento, transitório ou não, com a candidatura Lula à presidência. A manifestação ocorreu em uma série de tuítes. Para FN, a propagada polarização entre Bolsonaro e Lula seria falsa. Isso porque Lula estaria em outra nível de “civilidade” quando comparado à Lula. De facto, está. Lula respeita a “Declaração Universal dos Direitos Humanos”; o que já o posiciona em campo distinto de Bolsonaro. É um argumento que guarda lógica mas não se conecta com a realidade material. A razão é que estar ou não no mesmo campo não é condição para o fenômeno da polarização.

  1. Bolsonaro, em si, é produto de polarização

Como pontapé inicial desse breve comentário, é conveniente lembrar que Bolsonaro é produto de uma polarização imposta pelo PT. Explico. O primeiro turno das eleições de 2018 está entre os mais plurais já ocorridos na Nova República. Estavam ali representantes de setores: ambiental, “punitivismo judicial”, desenvolvimentismo, evangélico, movimentos sociais, além do liberalismo de diversas matizes – do vermelho ao laranja. Qual foi o diferencial de Bolsonaro? É consensual que a pauta moral alçou a candidatura de Bolsonaro a outro patamar. O receituário do liberalismo démodé e “setentista” era também defendido, em distintos graus, por Amoedo, Alckmin, Haddad e Meirelles. Foi a exploração sensacionalista de tópicos morais – através do bombardeio com tecnologias emergentes – que excitou uma população crescentemente conservadora. Deve-se recorrer a famosa a frase de Jean Willys dita em entrevista concedida ao Pedro Bial:

“Eu fui escada para Bolsonaro”.

Houve erro tático e de método na luta!

Bolsonaro venceu porque polarizou com valores conservadores e negando o PT – destaque para a exploração “lacerdista” do fenômeno da corrupção.

2. O artifício retórico

Surge uma aparente contradição nas palavras de FN; admite a polarização mas é cético sobre a possibilidade de desconstruí-la. Ora, não havia dito que não há polarização? Para FN, a polarização está apenas nas pesquisas de intenção de votos e não na dimensão conceitual e teórica dos candidatos. Acontece que, ao eleitor, o que interessa são símbolos. E o símbolo Bolsonaro ainda reflete uma parcela tão importante do eleitorado quanto o símbolo Lula. São números. Há polarização! Se pura ou não, depende da igreja frequentada por cada um.

3. PT é sinônimo de polarização

O PT se enxerga como único partido de “esquerda” ou “progressista” do país. E não esconde a arrogância. Vejam as palavras recentes de Lula:

“O PT é o único partido político que existe. O resto é sigla de interesses eleitorais”.

Isso é ou não uma postura que alimenta a polarização?

Ademais, o que podemos chamar de “epistemologia existencial” do PT, não é recente. É uma característica de origem. Basta dizer que atravessamos 22 anos de disputas entre petistas e tucanos. É incrível que mesmo convidados a participar do Governo Itamar Franco, PT preferiu permanecer na oposição. Não é segredo que Lula sempre se espelhou no modelo político estadunidense em que o pleito é reduzido a dois partidos majoritários: Democratas e Republicanos.

4. A utopia

O que Felipe chama de projeto utópico é aplicado em todos os países do planeta. De China à República da Coréia. De Rússia à Irã. De Estados Unidos à União Europeia. Trata-se de valoração da união entre setores do trabalho e produção. A aposta em investimento público de longo prazo; ajustes de contas via receita e não despesa. Se isso soa como utopia para FN, recomenda-se que abra os olhos para o que acontece em todo o planeta. FN, até Washington já se deu conta que seu consenso foi sepultado; sobrevivendo somente no Brasil, ironicamente, como elemento pacificador da polarização que se luta para suplantar.

5. O fatalismo de FN

FN é jovem e tem mergulhado de cabeça em temas econômicos, políticos e de manejo da “coisa pública”. É louvável e deve ser estimulado. Se há algo positivo nessa debacle pela qual atravessa o país é o aumento do interesse coletivo pela força maior que define a vida dos brasileiros. A política. Entretanto, a experiência e os factos da história apontam para prudência. Faltam 18 meses para as próximas eleições. Isso é uma vida. Afirmar, com os dados de hoje, que não há espaço para o que FN chama de “terceira via” beira a ingenuidade. Há muito espaço. Depende de articulações, coalizões, costuras difíceis? Sim. Mas o caminho está sendo percorrido com muito êxito.

Para terminar

É lamentável ver um jovem usando fatalismo para defender uma posição política. Há que se ter o “dever da esperança”. FN, não há espaço para uma “terceira via” por uma única razão. Ciro Gomes representa a única via alternativa ao neoliberalismo. Trata-se de escolher entre desenvolvimentismo responsável/soberano ou neoliberalismo. Você é um jovem brilhante e recentemente manifestou publicamente um arrependimento. É muitíssimo provável que, em breve, volte a repetir a nobre atitude.

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