A ameaça ao Estado Laico foi estimulada em governos do PT

A ameaça ao Estado Laico foi gestada em governos “progressistas”

As falas advogado geral da União, André Mendonça, e do procurador-geral da República, Augusto Aras, nas sessões do Supremo Tribunal Federal – STF que decidiram sobre a realização de cultos presenciais durante pandemia, trouxeram ao primeiro plano a crescente influência das igrejas no poder central do Brasil. Tanto André Mendonça, quanto Augusto Aras estavam empregando esforços para preencher requisitos sintetizados na expressão “terrivelmente evangélico”. É condição de Bolsonaro para a indicação do próximo ministro ao STF. Bolsonaro fez o movimento para manter o apoio dos evangélicos que se estabeleceram como parcela fundamental de seu eleitorado. Entretanto, o que se extrai desse debate é o processo pelo qual as representações religiosas se tornaram  importantes fatores decisórios da administração pública (e.g. câmara, senado, ministérios, judiciário).

O início do crescimento acelerado da população evangélica data da década de 90. Basta dizer que foi nesse período que o grupo Record passou para as mãos de Edir Macedo. Portanto, seria injusto relacionar conciliações entre governos ditos “progressistas” e representações evangélicas com as transformações religiosas da população brasileira. Entretanto, é crucial o entendimento da convergência e conciliação entre os dois poderes que ganharam protagonismo e caminharam juntos por 14 anos.

Fonte. IBGE.

Convergência

A carta aos brasileiros, apelidada de carta aos banqueiros, já sinalizava que as gestões petistas não fariam transformações estruturais. Estabeleceu-se a continuidade do tripé macroeconômico e um marco de economia política apelidado de “nacional-consumismo”. Ora, como não houve alteração no perfil regressivo da estrutura tributária — arrecadação — e nem robustos projetos de industrialização — Brasil se desindustrializou — o nacional-consumismo só foi possível devido ao excepcionalíssimo “boom de commodities” propiciado pelo ingresso da China na OMC (Organização Mundial de Comércio). China entra na OMC em 2001 e Lula assume a presidência em 2003. Era o alcance da cidadania via consumo. A fórmula permitiu que ricos ficassem estupidamente mais ricos e pobres passassem a consumir bens que antes lhes eram negados. A desigualdade permaneceu, como apontam os dados do economista Thomas Piketty. Ressalta-se que apelo ao consumismo somado à desigualdade é a fórmula perfeita para a violência. O que também está refletido em números. Mas onde está a convergência desse fenômeno com os evangélicos? Amigos de luta, se antes era hegemônica a máxima “mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, que entrar um rico no reino de Deus” a teologia da prosperidade chega para naturalizar tanto o acúmulo quanto consumo individual. Ressalta-se, a constatação não guarda nenhum juízo de cunho moral.

Conciliação

O conjunto de políticas públicas dos 14 anos de gestões petistas não foram suficientes para preencher o vácuo da ausência de reformas estruturais. A desigualdade permaneceu. Os serviços públicos continuaram precários nas periferias. Transporte coletivo eficiente como metrô, habitação, saneamento básico, espaços coletivos de lazer continuaram um sonho distante para a grande maioria dos brasileiros. As políticas públicas não chegaram até a periferia de forma satisfatória e o consumo de bens propiciado pelo “nacional-consumismo” também não geraram o sentimento de dignidade. Igrejas evangélicas preencheram a lacuna “como nunca antes na história desse país”. A conciliação se consumou. Em troca de votos das periferias, votos antes conquistados por uma legítima militância de base, o PT conciliou com as principais lideranças Evangélicas o que potencializou sua influência e enraizamento no Estado Brasileiro. Paralelamente, as conquistas do povo via consumo, tornaram-se conquistas individuais. Frutos únicos do trabalho e sem relação com gestão política do país. O PT se omitiu do trabalho de pedagogia e politização popular e o vácuo foi preenchido pelas igrejas. Não há militância e trabalho de base que que sobreviva à flagrante ausência de reformas estruturantes. A militância foi substituída pela cooptação.

O fim da história

Se antes havia discussão sobre o conservadorismo do povo brasileiro, os dias recentes trataram de pacificar as dúvidas. Agravando ainda mais o cenário, PT importou um modelo de interpretação da realidade de origem estadunidense que acirrou o ódio e a polarização da população brasileira.  Esse modelo é conhecido como “identitarismo”. O autor escreveu detalhadamente sobre o tema no Disparada. O PT deixou um “vácuo pedagógico” nas periferias brasileiras  preenchido pelas igrejas em uma ponta da corda, na outra, fez uma aposta em um modelo de interpretação da sociedade eficiente em Oslo, jamais desse lado do Equador. Bolsonaro é o arquétipo do rompimento da corda. Não foi a pauta econômica que o elegeu. A plutocracia brasileira queria Geraldo Alckmin, lembram? Amigos de luta, tínhamos Amoedo e Meirelles. O que deu protagonismo ao Bolsonaro foi essa mistura explosiva que começa na “carta aos brasileiros” e na renúncia por mudanças estruturais. O mais assustador é que Lula vem aí. Vem propondo uma nova conciliação e segue fugindo das mudanças estruturais. A crítica ao “teto dos gastos” desapareceu do discurso. É o “nacional consumismo” repaginado. Disse que assistiu muitos cultos na Polícia Federal. Recentemente mandou essa: “Eu quero entrar nessa. Eu tenho até um jeitão de ser pastor”.

O Brasil é um Estado Laico e cultiva fortemente a liberdade religiosa. Entretanto, é o Estado e “somente ele” o responsável pela dignidade de seu povo. Lutemos por reformas estruturais!

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